Coluna Prestes: 85 anos de passagem por Crateús

Adriana Marques Professora

…“Noite do dia 15 de janeiro de 1926. A 7 km de Crateús acampava o 2º Destacamento da Coluna Prestes. Hoje, pela nova linha asfáltica, esta distância medeia entre 9 a l0km. O registro do Batalhão João Alberto, (os Revoltosos) acampando na Fazenda Pastos Bons, é confirmado não só pelo veredicto do povo, mas também pela tradição oficial escrita”.
“Na tarde daquele dia de grande expectativa para Crateús, aparecera pelas ruas da cidade a figura singular de um “mendigo” vestido em trapos. Era um “aleijado”. Andando com dificuldade e sempre capenga, o infeliz mendigo palmilhava as ruas de Crateús, semi-curvado. Seu estado físico era de comiseração. Trôpego, denotava uma grande e lamentável fraqueza. Sucede, porém, que a presença daquele aleijado estranho – num dia de apreensões em virtude da iminente vinda dos Revoltosos – levantara suspeitas na cidade. “Estou desconfiado de um certo aleijado que apareceu no Riacho do Mato”. “Aquele aleijado me deixou desconfiado”. O relato acima é do escritor Padre Geraldo de Oliveira Lima em seu Livro A Marcha da Coluna Prestes através do Ceará.
Prossegue o padre: “Como optamos por conservar a ordem cronológica dos acontecimentos – ingente tarefa – lembramos ao leitor que, esta cena do “mendigo”, nos arredores e dentro de Crateús, acontecera mesmo antes do grosso do Destacamento João Alberto chegar à fazenda Pastos Bons, vizinha a Crateús. Assim sendo, quando os Revoltosos acamparam em Pastos Bons, estes fatos relativos ao “deficiente físico”, de que ora nos ocupamos, já haviam ocorrido e, conseqüentemente, João Alberto logo soube de tudo o que se passava dentro de Crateús através de seu espião, falso mendigo”.
Prossegue o autor: “Domingo. Dia em que o “deficiente físico” perambulava por Crateús. Passando perto da praça da igreja, o “mendigo” segue pela rua Dr. João Tomé e bate à porta da casa 290. É atendido pela dona de casa, dona Isabel Bonfim Leitão. Esta oferece ao pedinte café e bolo. Mas notara dona Isabel que o “aleijado” tinha boas maneiras: a fineza no pegar a xícara e levá-la à boca. A delicadeza no servir-se. Atenta a estes gestos convencionais de gente fina, dona Isabel Leitão ficou surpresa… Perspicaz e lúcida, esta senhora formulou a seguinte pergunta ao bizarro “mendigo”: – O que o sr sabe dos Revoltosos? – Minha senhora, eu não sei de nada. Só sei de minhas esmolinhas.
Após este curto diálogo, o estranho pedinte deixou a calçada da residência de dona Isabel e tomou rumo ignorado. Mas, esta senhora, pondo em dúvidas os objetivos daquele esquisito “aleijado”, denunciou-o ao delegado de Crateús, Peregrino Montenegro”.
O delegado teve um encontro com o mendigo, e prometeu ao mesmo se ele falasse a verdade, o soltaria, e o rebelde acabou confessando que era um revoltoso, o capitão Heráclito, vulgo capitão “pretinho”, e que sua intenção era saber quais os pontos estratégicos que as forças legalistas preparavam para atacá-los. Peregrino manda, então, um recado ao comandante do 2º Destacamento, João Alberto Lins de Barros, que poderia vir invadir Crateús, pois estavam preparados. De modo que, quando a tropa de João Alberto chega à noite a Pastos Bons, fica sabendo dessas informações, através do capitão Pretinho.
“Quando o grosso do 2º Destacamento da Coluna Prestes reinicia a marcha das imediações de Sucesso, para Crateús, a vanguarda, já muito rondava o ex-Príncipe Imperial”, denotando que a vanguarda da Coluna entrou em Crateús no dia 14 de janeiro de 1926. E foi somente na madrugada do dia 16 que ocorreu o combate entre as forças legalistas de Crateús sob o comando do delegado Peregrino Montenegro com a Coluna Prestes, ou 1ª Divisão Revolucionária, como é oficialmente registrada nos anais da História, sob o comando do coronel João Alberto, citado anteriormente.
Os locais de maiores conflitos foram as praças da Estação e da Matriz, onde a marcha revolucionária sofreu a perda de dois homens: O tenente Tarquínio e o cabo Antoninho Cabeleira, este, cozinheiro da tropa. Os corpos de ambos, até hoje permanecem sepultados na localidade de Boa Vista, logo após a Várzea dos Paus Brancos. No local do sepultamento há dois túmulos, e os populares denominaram de “Cemitério dos Revoltosos.
A passagem da Coluna Prestes por Crateús foi um fato muito importante para a nossa história. A Marcha Revolucionária percorreu 25 mil quilômetros a pé ou a cavalo durante dois anos e meio sem interrupção por 12 Estados brasileiros. Na verdade o que queremos destacar é a grande relevância que a Coluna teve, desde o soldado revolucionário até o comandante, o general Miguel Costa, e Luís Carlos Prestes, como chefe do Estado-Maior, cargo para qual foi nomeado por Miguel Costa, e sua função era transformar em ordens o pensamento do comandante.
Portanto, nossa intenção aqui é contribuir, e não deixar cair no esquecimento um feito grandioso que foi a Marcha da Coluna Prestes, que teve repercussão não só no Brasil, mas em outros países, pois o esquecimento é o pior legado que se pode transmitir. Precisamos lembrar os filhos da terra que testemunharam a passagem dos Revoltosos e lhes passaram informações, pois, de algum modo, dela participaram. Foram eles: Leônidas Bezerra, João Melo, e Frutuoso Lins, entre outros.
Nós crateuenses deveríamos nos sentir orgulhosos por fazermos parte dessa epopéia que é considerada por muitos estudiosos uma saga universal. Deveríamos valorizar o monumento que representa o verdadeiro ideal revolucionário. Deveríamos, sim! Mas poucos são os que reconhecem a importância que a História pode representar para um povo.
Precisamos refletir. Proporcionar aos jovens uma visão mais ampla acerca dos acontecimentos. Despertá-los para que sintam fome de conhecimentos. Só assim, saberão distinguir que o fundamental não é descobrir ou destruir heróis, mas aprender para evoluir, baseado em fontes que se aproximem o mais perto possível da verdade para poder entendê-los em suas várias facetas e contradições, pois, contradições não faltam na nossa História! Infelizmente!

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